terça-feira, 28 de março de 2017

Crítica: Estopô Balaio

Documentário extrai arte, com honestidade, em meio a um pesadelo e atua como um bálsamo sobre um estigma. O resultado é extraordinário.


Se a enchente interfere violentamente nas ruas, causando prejuízos e desgostos na vida de muitas pessoas, tanto mais a arte pode interferir também e agir nestas mesmas vidas, mas, ao contrário da enchente, sem nenhum dano e com muita misericórdia. Neste documentário do cineasta genial, Cristiano Burlan, três desdobramentos da mesma prática geram resultados impressionantes. A essa prática compreenda-se a "interferência", um dos grandes pontos de partida do cinema documental. Enquanto as chuvas interferiram impiedosamente na vida dos moradores do Bairro do Romano, extremo leste da grande São Paulo, a experiência de um coletivo artístico de migrantes de diversas linguagens residentes, opera em reelaborar a tragédia na vida dos moradores. Enquanto isso, desde 2014, Cristiano Burlan registra a atividade e se insere também, junto com o coletivo, dentro das casas das pessoas, mas não só isso, acaba interferindo na vida dos próprios artistas. O efeito de reconhecimento entre uns e outros, entre histórias e situações, deram a câmera de Burlan, que assumiu a postura de uma espécie de exímia e paciente testemunha, uma oportunidade rara, que é aquele alinhamento natural de como a vida se comporta. E só dessa forma para alcançar um resultado tão honesto.

No entanto, a medida em que vai se assimilando as gravidades, mais se compreende como os teatros, raps e saraus, encenados pelas ruas do Romano, ganham sentido. É um dos melhores exemplos de como a arte pode identificar a pessoa e fazê-la se identificar com a arte. O Bairro do Romano chegou a ficar 3 meses em baixo d'àgua em 2010, uma calamidade pública e uma tragédia que deixou marcas. "Estopô Balaio" é o nome do coletivo artístico que desenvolve residência no mesmo bairro, cuja essência é nordestina. Eles investigam a memória migrante da cidade de São Paulo e atuam com a ideia de teatro documentário e biodrama. São pessoas que, em sua maioria, saíram de realidades de vida torturantes e que encontraram no teatro um espaço que, ao mesmo tempo que cura, oferta uma noção de voz. Pois bem, o que esse grupo fez foi transformar a tragédia em matéria-prima, enxergar nestas formas de pesadelo um processo criativo, com que pudessem se aproximar das vidas e sugerir que elas ressignificassem suas experiências. Fizeram ainda mais, mapearam o Bairro do Romano como se ele mesmo fosse um teatro e transformaram as entradas das casas em palcos e, por vezes, transformaram os próprios moradores em artistas, de modo que o que se canta, recita ou encena, foi escrito com seus próprios sentimentos.



A câmera de Cristiano Burlan registra dois comportamentos, registra o envolvimento do Estopô Balaio com o bairro, e um dos grandes momentos da realização é quando o integrante do coletivo está dentro da casa de duas moradoras, que sofreram com as enchentes e foram capa do Estado de SP; e registra também como o Estopô Balaio afeta os próprios artistas, em como a exposição artística é um bálsamo para cada um deles. Nesse sentido, o talento deste documentário é emblemático, pois demonstra como tudo é uma questão de interferência e salienta a beleza do envolvimento. Tudo é uma questão de exposição, mas o que molda o registro é o interesse. O coletivo exerce um interesse pela situação que a cidade de São Paulo não exerce, enquanto causa social; ao mesmo tempo, há liberdade por parte do Bairro do Romano, que se sente a vontade com as intervenções e em delas participar. E, neste encontro, Burlan surge como o olhar que contempla os esforços. O resultado é sublime e marca sua necessidade também pela grande menção da realização, dita pelo integrante do Estopô Balaio: como opera a arte e a poesia em situações de trauma social? Este belíssimo documentário persegue essa faceta e brilhantemente.

" ESTOPÔ BALAIO " - Estopô Balaio - Dir. por Cristiano Burlan - Brasil - 2016 - Distribuidora no Brasil: Bela Filmes

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