quinta-feira, 9 de março de 2017

Crítica: Personal Shopper



De fato, há aqui um exercício instigante, curioso e provocador, do grande cineasta francês Olivier Assayas. Não foi à toa que ganhou o prêmio de direção em Cannes\2016, pois é palpável o resultado do seu inventivo desejo criativo, com a qualidade de desvendar um ambiente desconhecido e evocar, brilhantemente (como um primo distante), o resultado da obra-prima "Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas", grande vencedor da Palma de Ouro em Cannes\2010. O cineasta disse, em entrevistas, que não é dever do cinema buscar respostas, mas sim de criar a ilusão, ao mesmo modo que a fé também não deixa de ser uma ilusão. Dessa forma, ao fazer um filme sobre mediunidade, obtém elementos criativos e faz surgir uma tônica para trabalhar o aspecto ilusório, também proposto pelo cinema em si. É dessas coisas inexplicáveis que o cinema se faz, em permitir a um cineasta flertar com um outro espectro do cinema, exercitando sua narrativa e produzindo, para si e para o público, o resultado dessa atração.

A personagem de Kristen Stewart, Maureen, tenta uma comunicação com o irmão que faleceu dentro da casa em que ele viveu para, assim, a pedido da cunhada, liberar o imóvel para venda. A atriz se alterna entre essa atuação e a atuação como personal shopper para uma celebridade, chamada Kyra, para quem ela é que escolhe como se vestirá e que jóias usará em eventos. É uma riqueza observar as posturas diferentes da personagem nas duas situações, pois, enquanto como médium, é completamente afetada pelo esforço incerto da comunicação com o mundo dos mortos, como personal shopper, consegue permanecer intacta, mesmo estando sujeita a frieza da relação com sua contratante, alguém que pertence a outro mundo. As tentativas de Maureen em se aproximar de Kyra são um náufrago, tamanha a distância que há entre as duas. E as tentativas de Maureen em se aproximar do irmão morto, também teriam tudo para ser um náufrago e, no entanto, trazem um surpreendente entendimento.

É interessante observar como Kristen Stewart constrói, maravilhosamente, sua personagem, oferecendo-lhe uma postura impenetrável e é um dos pontos fortes desta bela atuação. Nós não sabemos quando ela se demonstrará frágil. A personagem não busca a relação sobrenatural de modo banal, mas com um propósito e disso não se afasta. As cenas em que está próxima do desconhecido são memoráveis e a atriz se exibe em nível cavalar de concentração, o que nos interliga surpreendentemente a ela. Ela consegue trazer uma sinergia. Mas não só à essas cenas, também as cenas em que decide ceder a distância com a patroa e veste, enfim, suas roupas e usa suas jóias, o que também invade por um aspecto de autoconhecimento da personagem e sua identidade, são de uma beleza singular. Este filme tem um tempo próprio e é isto também que me faz apaixonado pelos filmes únicos de Olivier Assayas. Escutar com calma os sons assustadores que aqui são produzidos do silêncio, ser pego de surpresa no suspense dramático (e tenso) que lá pelas tantas se instaura e consumir a visão de um cineasta desta envergadura, imaginando eventos paranormais, se utilizando de elementos de gênero, sem se apropriar dos gêneros que se utiliza, tudo isso demonstra o talento e o nível de visionário que há neste cineasta. Na tela do cinema o espetáculo é surpreendente. Que, em casa, no silêncio do cômodo e na qualidade das aparelhagens, que este espetáculo se repita.

" PERSONAL SHOPPER " - Personal Shopper - Dir. por Olivier Assayas - França - 2016 - Distribuidora no Brasil: Imovision

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