domingo, 12 de março de 2017

Crítica: Silêncio


Quase 30 anos trabalhando um projeto na cabeça (e no coração) para, enfim, operar qual resultado? Envergar-se num épico visual, de proporções abismais e exibindo extrema lucidez para transformar o cinema no mais perfeito canal a dilatar suas dimensões, promovendo uma reflexão em torno de como se reage através de sua fé e através de suas convicções pessoais. Tudo isso regado pela dúvida, pela tortura psicológica e por questionamentos íntimos. E qual é a única pessoa com capacidade plena para realizar todo esse conjunto em um belíssimo efeito de quase 3 horas, transformadas num puro exercício do que de melhor o cinema pode oferecer, que é arrebatar? Martin Scorsese. Testemunhar esse resultado e receber esse impacto, é uma tarefa que deveria pertencer somente ao espetáculo da tela do cinema, mas o resultado é tão eficaz, que poderá ser digerido também numa projeção com a calmaria do conforto da casa da gente. 

Em 1630, o Padre Sebastião e o Padre Garpe, dois Padres Jesuítas, encontram-se completamente
incomodados com a notícia de que o Padre Ferreira, até então um ícone absoluto de fé, convicção e postura, teria abandonado a Igreja no Japão e, tomados pelo inconformismo, entram clandestinamente no país, afim de encontrá-lo. Porém, o terreno para eles é perigoso, os senhores feudais japoneses, decididos a banir a religião dali, torturam os cristãos e os matam. Aliás, diga-se de passagem, as cenas e sequências de tortura, são as que, inacreditavelmente, poderiam se chamar de as mais belíssimas, ao mesmo tempo que chocantes. A abertura do filme, inclusive, é arrebatadora. A jornada dessas duas figuras é completa na visão de Scorsese, não se perde uma chance de utilizar a matéria-prima, seja a matéria-prima que o cinema é, por si só, seja a do romance adaptado aqui de Shusaku Endo ou seja a da natureza, captada com fina habilidade de torná-la um aspecto vivo da "mise en scène". Todos esses talentos movem o resultado de toda filmografia de Scorsese, é uma de suas marcas, aliada ao fascínio da narrativa. Fascínio esse, também em Scorsese, um patrimônio do cinema, pois raros cineastas exibem essa existência autoral tão expressiva e um exemplo disso é seu filme anterior. É impressionante como consegue fazer um filme barulhento, debochado, épico, sem deixar de ser espetacular, como foi "O Lobo de Wall Street" e, ao mesmo tempo, é impressionante como consegue fazer um filme calmo, silencioso, contemplativo, como é "Silêncio".

E não para por aí, quando enfim o Padre Sebastião é capturado pelos japoneses e fica ainda mais próximo da descoberta do "suposto" paradeiro do Padre Ferreira, surge outra predileção de Scorsese, a tortura psicológica ou uma batalha pela persuasão e o resultado é sempre impressionante. O Padre Sebastião é bombardeado pelas ferramentas utilizadas pelo temido Inoue, o grande "manda-chuva" do local, que as usa com propriedade para persuadí-lo a negar sua fé. Ele assiste a  horrível tortura dos cristãos, mas também é levado a travar diálogos maravilhosos com o próprio Inoue e os outros senhores dali, cujos argumentos são desnorteantes. Revela-se, assim, ainda outro brilhantismo do filme em contar com a linda atuação de Andrew Garfield, em compor o Padre Sebastião, mas também a riqueza do elenco japonês, cujo ápice é o monumental Issey Ogata, que interpreta Inoue e que, toda vez que está em cena, é um colosso. Além deles, Adam Driver, o Padre Garpe, oferece uma pequena jóia com sua interpretação e não precisa muito pra perceber que ele é um artista formidável. É preciso dizer também de como o filme dilata e deixa suas sequências memoráveis; numa delas o ponto de vista está dentro da gaiola em que Sebastião está preso e assiste a decapitação de um cristão, mas são célebres as cenas em que os cristãos precisam pisar numa gravura sacra e é ainda mais célebre, e poética, a cena em que o próprio Sebastião é levado a essa prática. O resultado é pura imersão cinematográfica.

Essa história já foi adaptada para o cinema em 1971, pelas mãos do mestre Masahiro Shinoda, mas com outra objetividade e economia. Contudo, todo o gosto de Scorsese em construí-la com tamanho impacto, representa muito mais do que poderia-se intuir. Ela foi avaliada por ele com um filtro pessoal, levando em conta que quase morreu em 1978 e que, depois disso, teria tido uma relação mais próxima com sua fé, segundo ele mesmo em entrevistas. Porém, há 30 anos queria contar a história do romance de Shusako Endo, mas, sempre avaliando e reavaliando seu roteiro, terminando outros trabalhos "menores", não havia chegado a hora. Agora, não só o momento lhe concedeu a oportunidade, como lhe ofereceu a lucidez para, através do filme, expressar também como se dão momentos em que parecemos atravessar por "tempestades" ou "desertos" íntimos e como flertamos com os desejos e vontades de abandonar tudo. O resultado é mais uma de suas aulaa de cinema, mais uma realização fascinante e a certeza que o cinema continua a ser equacionado e reinventado por mãos de quem sabe o que faz, pelas mãos de Martin Scorsese.

" SILÊNCIO " - Silence - Dir. por Martin Scorsese - Estados Unidos - 2016 - Distribuidora no Brasil: Imagem Filmes



Um comentário:

  1. Excelente ecrítica obrigado, Liam é maravilhoso ator. Li um livro com uma história extraordinária, por isso quando soube que estrearia o filme A Monster Calls eu quería assistir é umo dos melhores filmes Liam Neeson, soube que devia vê-la. Parece surpreendente que esta história tenha sido real, considero que outro fator que fez deste um grande filme foi a atuação do Lewis MacDougall, seu talento é impressionante.

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