sábado, 4 de março de 2017

Crítica: Um Limite Entre Nós




Há algo de muito extraordinário acontecendo neste filme, algo que penetra o espectador, um estimulante a não desgrudar os olhos, nem por um segundo da tela e, principalmente, o entendimento. Há um verdadeiro fenômeno subjetivo de densidade (na melhor definição entre a relação de massa e volume, tamanho o efeito palpável que se obtém aqui) surgindo à cada cena, à cada sequência e, ainda mais, a cada frase que se escuta saindo da boca dos maiores atrativos desta realização. E toda minha crítica se baseia numa única percepção que, de todos, o maior espetáculo deste filme impressionante chama-se: Viola Davis e Denzel Washington. Esses talvez sejam, realmente, os artistas mais representativos de sua geração, pois imprimiram seus talentos de forma histórica em todos os trabalhos que aceitaram. É uma oportunidade única assistir dois "monstros" dessa estirpe contracenar juntos e testemunhar o que podem fazer com personagens, pois eles dilatam o diâmetro das vidas que interpretam. 

Raras vezes no cinema, por exemplo, somos levados a tal compreensão do arco dramático, apenas através do texto. Aqui o texto, uma adaptação de teatro para o cinema, feita com exímio conhecimento de causa (e de todos os tipos, como geográfico, por exemplo, já que não há um deslocamento de espaço físico fora do tom, só pra se ter uma ideia da beleza que é a direção de Denzel), é uma fonte incessante de riqueza. Aqui abrimos um link para dizer o seguinte: é fato que existe uma certa cumplicidade entre as artes e entre as manifestações artísticas, no entanto, é mais fato ainda o quanto cada arte tem a sua liberdade, a chamada "liberdade artística" e, nesse sentido, nunca uma arte terá a personalidade única da outra. Sendo assim, havemos de pensar no mistério que habita o palco do teatro, mistério esse que remonta seus inícios e prega que o palco é lugar de despir-se, é o lugar da desconstrução, por excelência; em cima do palco não há máscaras, há tragédia ou comédia, fazendo do palco a maior manifestação do rasgar-se completamente e bem ali, diante da platéia, quase que sem espaço dividindo a mesma da encenação.

Dito isso, há de se pensar, sob esse prisma, na potência que existe nesta adaptação e não haveria um modo de entendimento mais perfeito das vidas de "Um Limite Entre Nós", do que esse modo como foi imaginado (também não perdendo de vista tantos outros resultados exímios no cinema de filmes adaptados de peças). As vidas desse filme, de fato, ficam nuas diante do espectador, elas precisariam se expor de forma visceral diante da tela do cinema, pois no palco é assim que elas fazem sentido e permitem a quem assiste tomar os seus significados. Então, é um desafio reproduzir o resultado dos palcos diante das câmeras, por entre as equações que são feitas através de um filme. Um filme não é um teatro, mas em "Um Limite Entre Nós", o resultado alcançado é justamente a exatidão entre palco e câmera. Por isso o louvor a Denzel Washington, afinal, você tem que ser mesmo um gênio pra se assegurar que está no caminho certo e que o modo como fará tem sentido.

E qual é o resultado aqui? Por que ele é tão precioso assim? Bem, "Um Limite Entre Nós" é um drama doméstico de negros na década de 50, vivendo conflitos pessoais, sob os quais pesam também os conflitos sociais. Porém, é muito mais que isso, se distancia de qualquer demonstração rasa e parte para uma jornada de orgulho, onde a vida dos personagens vale tanto quanto a qualquer outra vida sobre esta terra e por isso aqui a maior riqueza deste filme são seus diálogos e esse texto tão abismal do August Wilson. A esposa, o marido, o irmão do marido, os filhos, o amigo, todos passam como um trator em cima de você e pontuam sua existência, pontuam seus conflitos, pontuam seus ganhos, suas perdas e pontuam suas perspectivas de vida, sua visão de mundo e seu local exato na existência. Nenhum deles se permite a nenhuma caricatura, muito menos crescem diante do espectador, pelo contrário, eles se demonstram como são: grandes, gigantescos e seus closes enchem a tela. 

Percebi, assim, um intrínseco diálogo com "Moonlight - Sob A Luz do Luar" e "Estrelas Além do Tempo", pois pude assimilar que, nestas obras, a compreensão sobre negras e negros está ancorada numa maturidade de consciência e promove esse mesmo exercício, no sentido de que essas vidas não passam a existir a partir de agora, elas já estão e estavam aí bem diante dos nossos olhos e, enquanto a sociedade dava de ombros, elas simplesmente existiam. É a resposta por um anseio coletivo dos nossos dias. Em "Um Limite Entre Nós" a tensão emerge menos da narrativa e mais do aspecto discursivo e\ou exclamativo, ou seja, se você reparar, não é a toa que os personagens falam diretamente uns aos outros, porque é como se não falassem ao espectador e é como se, através da câmera, nós, os espectadores, trocássemos de lugar com o personagem que está ouvindo (ou os personagens), no uso mais inspirado possível do ponto de vista, uma ferramenta, aliás, definitiva em se tratando de adaptações desse cunho para o cinema. E o ponto de vista aqui, outra riqueza desse texto, não é flexível, ele não de tá a oportunidade de fazer juízo, pelo contrário, acontece uma manifestação ainda mais estarrecedora, ele te põe em posição somente de ouvinte, como que pedindo respeito por quem está na sua frente. E só por isso esse filme já serviria pra nos fazer reverenciá-lo. 

Também por isso a personagem de Viola Davis, por si só, é célebre. A sequência em que ela se expõe ao filho, após a morte do marido, o filho que saiu de casa, é fulminante e pede inteiramente a nossa glorificação a ela pela postura que assumiu durante todos os anos de casada. O personagem de Denzel Washington também é célebre, a sequência em que despeja sobre seu filho um ímpeto dizendo que o interesse na vida não deve estar atrelado na expectativa que se tem de que alguém gosta ou não de nós, mas sim em fazer a nossa parte no lugar em que estamos, cumprir a nossa responsabilidade, seja como homem, marido, profissional e tudo mais; essa sequência tem um valor inestimável. É tudo um desafio de transcender ao contexto. A personagem de Viola Davis, incrivelmente, pesa como um efeito borboleta (lembra da definição disso?!), ela é o contrário da leoa domesticada, é o símbolo do alicerce que não se subestima e que explode na autoimposição como parte fundamental da estrutura das relações de afeto e de bravura. 

A direção de Denzel Washington é monumental e ele se comprometeu a fidelidade ao texto da peça, que ele e Viola encenaram por tanto tempo nos palcos. Não só conseguiu, como arrebatou e, devo dizer, quem não estiver afim de levar tudo o que foi dito aqui em conta, infelizmente não vai digerir o espetáculo que emerge da tela. Quero ainda dar destaque ao ator Stephen Henderson que promove uma belíssima atuação coadjuvante como o amigo do personagem de Denzel Washington. Como visto, muito há o que ser dito deste filme, mas fico com as palavras da personagem de Viola Davis para o marido, em determinado momento, e que precisa ecoar dia após dia dentro de cada um de nós, principalmente naqueles momentos em que ainda nos vemos presos a preconceitos ou velhas mentalidades: "Os tempos mudaram, os tempos são outros"!

" UM LIMITE ENTRE NÓS " - Fences - Dir. por Denzel Washington - Estados Unidos - 2016 - Distribuidora no Brasil: Paramount











Nenhum comentário:

Postar um comentário