quinta-feira, 12 de outubro de 2017

El Amparo

"As paranoias, as injustiças e as feridas abertas da América Latina"

CARTAZ CEDIDO GENTILMENTE PELA PANDORA FILMES
FOTO FEITA NO CAIXA BELAS ARTES

Há várias situações para se prestar atenção em "El Amparo", para não deixar escapar a convicção de que este é um dos 10 filmes mais notáveis do ano, que poderemos ter acesso. Estou utilizando a palavra "acesso", pois este filme venceu a 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (em 2016) e, para nossa alegria, ganhou distribuição pela Pandora Filmes. Tristemente, muitos filmes ficam sem distribuição. Pois bem, este filme trata de um episódio verídico, ocorrido nos anos 80, onde um grupo de pescadores foram mortos, tidos como supostos agentes de guerrilha prestes a atacar uma usina, mas 2 deles escaparam e foram alvo de uma onda de desconfiança e descréditos. Enquanto, por um lado, alegavam a intenção da pesca e, ouvindo tiros, fugiram, por outro lado, há contradição nas versões que vão sendo apresentadas. E dessa forma, enquanto estão detidos na prisão da pequena vila de El Amparo, os dois pescadores são expostos aos militares, a imprensa e à própria comunidade, todos cada vez mais entranhados em, ou descobrir um norte em meio ao que ali possa ser uma injustiça, ou descobrir um norte sobre o que realmente aconteceu.

Esse filme cresce por várias razões: a narrativa abertamente realista do cineasta Rober Calzadilla, logo no início do filme, surpreende o espectador, tornando aquele olhar para um lugar qualquer entre a Venezuela e a Colômbia, um cenário que se anuncia a sair daquela invisibilidade; há um aspecto hediondo quando os personagens começam a ser reunidos para um "trabalho", que causa uma estranheza e desorienta o espectador; precisa-se perceber o tato com que as mulheres da vila são filmadas, na medida em que a preocupação e o conflito começam a se instaurar; e, por fim, o texto é afiado, ele está longe de tornar este filme como aqueles que transformam seus personagens em carrascos e vítimas, como aqueles filmes que adaptam esse tipo de história com bandeiras hasteadas. É esse o grande trunfo aqui, mostrar essas histórias que fazem parte da história da América Latina, cheia de predadores, cheia de manipulações, cheia de interesses, cheia de gente que "chega, chegando" se usando de seu poder e, pior, se aproveitando da fragilidade dos outros, pra limpar a sua barra.

Este filme não transforma seus personagens em santos, mas desafia justamente ao demonstrar que eles se guardam em vários momentos e que também não são um fruto para suas esposas e famílias. A grande conclusão, mais um ponto alto de "El Amparo", é permanecer ao lado do caso, tal como ele se desenrola, e sem chegar a lugar nenhum. Casos que continuam a ocorrer, que mesmo como esse que se passou na década de 80, parecem atuais e que continuam sem um desfecho, com seus personagens aguardando deferimento. Estas são feridas abertas na América Latina. Vale dizer aqui que, além da direção inspirada de Calzadilla, que não mostra derramamento de sangue, as atuações são espetaculares e minha maior surpresa foi o ator Vicente Peña, que realiza uma intrínseca atuação coadjuvante como o delegado que se esforça por um mínimo de respeito e limites dentro da delegacia, enquanto os personagens são assediados o tempo todo. O resultado deste filme é chocante, sem dúvida, um dos dez filmes mais notáveis do ano.

"El Amparo" - El Amparo - Dir. por Rober Calzadilla - Venezuela\Colômbia - 2016 - Distribuidora no Brasil: Pandora Filmes

Instagram Oficial: @daniel_serafim_mais_cinema
Perfil Oficial: facebook.com\dsmaiscinema - Daniel Serafim


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