domingo, 12 de novembro de 2017

Cinemagia: A História Das Videolocadoras de São Paulo

CARTAZ GENTILMENTE CEDIDO PELO BELAS ARTES PARA ESTE PROJETO
FOTOGRAFIA FEITA NO CAIXA BELAS ARTES

"Cineasta filma extinção de videolocadoras em São Paulo, capta últimos suspiros de algumas lojas, colhe depoimentos de pioneiros e fala de nossas experiências 'menos humanas'"

Para o paulistano Alan Oliveira (36), roteirista e editor de formação, há uma história a ser contada e a ser celebrada, sobre os 40 anos das Videolocadoras e Home Vídeo, que explodiram de São Paulo para todo o Brasil. As estações desses 40 anos, de 1976 a 2016, foram filmadas por ele (acreditem!) de forma extraordinária e emocionante, toda feita "do bolso", independente, sem fomento ou patrocínio. Este documentário, uma pérola a ser encontrada, está disponível, não nas prateleiras (como tantas que encontrávamos depois de horas garimpando dentro das locadoras), mas a partir desta semana numa das salas do Caixa Belas Artes, em São Paulo. É preciso dizer a quem tem dificuldades em estabelecer uma relação com a linguagem documental, que este documentário conseguirá envolvê-los, pois há uma qualidade familiar contida nele, justamente pela capacidade de, em menos de duas horas, exibir um registro que tem a ver com raízes da nossa história, das nossas famílias e de momentos inesquecíveis que vivemos sozinhos, com amigos ou em casais. No entanto, cresce em também ser um registro de uma era que dolorosamente entra em extinção, em também ser um registro para novas gerações que se configuram a partir de experiências menos humanas, movidas pela sedução do imediatismo, das facilidades e de ter tudo na palma da mão.

O emblemático no retrato criado por esse registro, fica por conta de ser produzido através da história dos "pais" dessa indústria, as primeiras pessoas que desenvolveram esse mercado no país e o estabeleceram. No entanto, o grande emblema do documentário de Alan Oliveira chama-se Adelino Dos Santos Abreu, o Ghaba, de fato quem viveu o primeiro amor pela possibilidade de "compartilhar" filmes e fez pela primeira vez o que centenas de pessoas fizeram depois: começou a alugar poucos títulos dentro da própria casa, não em garagem, mas dentro da própria casa mesmo. O início do documentário é de uma intuição fabulosa, ele apresenta duas importantes mulheres, Maria Aparecida de Oliveira, a esposa do Ghaba, e Helena Cunha Bueno, cineasta e amiga do Ghaba; essas duas mulheres estavam junto com ele quando tudo começou, são testemunhas, foram operárias e, sobretudo, tinham um carinho pelo Ghaba. A partir daí, a compreensão da figura do Ghaba é memorável, é dessas pessoas definitivas ou como menciona o cineasta Alan Oliveira "o Ghaba era tudo, fazia tudo. Não cabia em uma pessoa só. É a melhor definição para ele!".

Sonia Abreu, a mulher que funda a "2001 Vídeo", também é uma peça importante; ela é uma espécie de "discípula" do Ghaba, ela vive o fascínio primordial quando pisa dentro do espaço proposto pelo Ghaba e decide que aquele universo é o único que a fará feliz. Parece utópico, mas há de se prestar atenção na emoção de Sonia Abreu, pois o que se verá depois, em todos os outros pioneiros, é uma chama do fogo que o Ghaba acendeu. Nenhuma das figuras históricas vistas aqui se moveram a abrir suas lojas sem antes, duas coisas: amar filmes e enxergar um "sonho realizado" na possibilidade de ter o mundo dos filmes num alcance "mágico" (e poder compartilhar isso). Mesmo depois, quando aquilo já é um comércio e anseia por medidas legais, que não existiam no país, e a maioria dessas pessoas começam a se reunir, a viajar e gerar algo de concreto, mesmo depois disso, a chama dentro deles não diminui. Não diminui nem quando suas lágrimas caem ao final deste documentário.

Porém, a tecnologia, um fim do qual queremos depender, trouxe uma leitura abrasiva para o entretenimento e o lazer. Em determinado momento surge o DVD, depois o Bluray, mas não é o bastante. Em 2014, com a primavera do acesso vibrando entre os dedos, as videolocadoras já estavam as mínguas e o cineasta Alan Oliveira decidiu que era a hora de ligar as câmeras. Ele mesmo faz uma referência desestabilizadora quando afirma sobre o começo de suas filmagens dizendo "Captamos os últimos suspiros de muitas lojas". De lá pra cá, foram mais de 200 horas de filmagens, 56 gravações em 4 anos, mais de 80 entrevistas, mais de 20 videolocadoras e depoimentos de distribuidores, jornalistas, críticos de cinema, clientes das lojas e até vendedores de filmes influentes à época. Ou seja, esse registro também tem um aspecto definitivo, pois traça, com um interesse honesto e carinhoso (e curiosamente oferece uma leitura antropológica da sociedade), a cronologia do Home Vídeo, a partir de um estudo e do desafio de montar esse quebra-cabeça. O resultado é imperdível!

Pra terminar, sobre o futuro da indústria, sobre não sair de casa para ver filmes, perguntei ao cineasta sobre sua própria leitura, ele que está dentro dela. E ele respondeu: "Não há como prever o que vai acontecer com as janelas de distribuição. A tecnologia muda tudo. As experiências tendem a ser menos humanas. Acredito que sempre haverá público para o cinema e a experiência de se ver filmes em casa sempre foi diferente, então uma coisa não anula a outra. Nosso debate está sobre a nossa relação com as obras, é ela que se modifica se escolhemos em ver um filme no cinema ou em casa. Apesar da facilidade, sinto que o contato com o filme em casa vai ficando superficial, uma vez que vê-lo no cinema implica numa "missão" e nossa história com o cinema se constrói em sair de casa, cruzar um caminho, encontrar pessoas, ou seja, é muito mais sensorial. É disso que falamos com a perda das videolocadoras!".

Instagram Oficial: @daniel_serafim_mais_cinema
Perfil Oficial: facebook.com\dsmaiscinema - Daniel Serafim


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