sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Pendular

"Considero inegável: um dos 10 melhores filmes brasileiros de 2017"

FOTOGRAFIA FEITA NO CINECESC POR OCASIÃO DA
RETROSPECTIVA DO CINEMA BRASILEIRO 2017
CARTAZ GENTILMENTE CEDIDO

Neste filme da cineasta Julia Murat abundam abordagens sobre relação e abundam criatividade, originalidade e um vigor narrativo sem igual. Enquanto um casal de artistas acaba de se mudar para um novo lar, um grande galpão, a dividirem o espaço para seus exercícios, a relação dos dois reagirá de forma inesperada, resultando de um grande trunfo imposto pela cineasta à trama: até que ponto uma relação ocupa, do natural ao claustrofóbico, o espaço da outra pessoa. E o filme cresce vorazmente na medida em que surpreende suas obviedades, com as surpresas de sua narrativa,  onde estética está em função da dramaturgia e onde a concepção do veneno do amor romântico, transmitido culturalmente, se dissipa, destruído por uma visão urgente focada na pessoa. Cresce também pela atuação estupenda de Raquel Karro e de Rodrigo Bolzan; e eu diria que esse filme está para 5 grandes categorias, melhor filme, melhor direção, melhor atriz, melhor ator e melhor roteiro.

Logo, no filme que se incia com um casal delimitando o espaço com uma fita, prenunciando a um espectador atento suas metáforas, surge uma complexidade que foge da leitura que busca compreensão sobre o uso dessa linguagem. Dessa forma, você tem a perspectiva da cineasta que carimba seus temas sobre espaço, equilíbrio e relação, contrapondo a personagem bailarina/performática sobre um personagem escultor, através de cenas e sequências belíssimas de ambos em suas artes. Porém, a certa altura, quando vem a pressão, sob um sentimento que seja ele honesto ou não, do homem pedindo um filho, explodem as imagens sufocantes da mulher vivendo seus conflitos, implicada nas prisões transmitidas as relações e sentindo na pele os machucados do conflito violento que se instaura. Violento não no sentido físico, mas no sentido emocional e o filme se sobressai na implícita claustrofobia, em ser filmado num único local e com esses personagens, na maior parte do tempo, dividindo o espaço. 

É a maneira como "Pendular" demonstra sua inteligência em "purificar" o uso da linguagem. Ao mesmo tempo em que é cinema que se estende para a dança e para a escultura, alvejado em suas referências (Marina Abramović, Trisha Brow, Pina Bausch, Elisa Bracher), é também um filme que poe no lugar de fala outro grande tema: a liberdade. E essa é uma visão que se comunica com a urgência da sociedade. Ao colocar personagens que nem mesmo eles sabiam que iriam reagir da forma que reagem na convivência e tratar de suas reações intensas, a cineasta escreveu-os de forma que não abandonassem sua essência. É extremamente lindo ver a personagem se enxergar grávida, pensar no aborto e proteger sua liberdade como mulher. Da mesma forma é extremamente lindo ver a grande obra que ele faz pra ela, um disco em movimento que só se move em função do corpo, uma atitude que exclama sua compreensão de como andou a relação entre os dois. Também, em determinado momento, invertem seus "papéis" no sexo e é ela quem se satisfaz "comendo" ele, com a naturalidade do prazer que devia viver. E "Pendular" é assim um grande filme, grande vencedor do prêmio FIPRESCI do festival de Berlim 2017 e, pelo menos pra mim, 1 dos 10 melhores filmes nacionais de 2017. 

" PENDULAR " - Pendular - Dir. por Julia Murat - Brasil - 2017 - Distribuidora no Brasil: Vitrine Filmes - Visto na "Retrospectiva do Cinema Brasileiro 2017" no Cinesesc 

Instagram Oficial: @daniel_serafim_mais_cinema
Perfil Oficial: facebook.com/dsmaiscinema - Daniel Serafim


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