domingo, 21 de janeiro de 2018

O Pacto de Adriana

"Reze para nunca estar no lugar de Lissette Orozco. Nunca!"



Pense no membro de sua família que você mais ama. Traga na memória a imagem daquela pessoa de sua família que lhe serve de "ídolo" e em quem você talvez encontre sua maior referência. Pensou? Você conseguiria encarar, se fosse um fato, que essa mesma pessoa ajudou a construir a história de uma das piores ditaduras que se tem notícia, cujo "lema" era de "não deixar ninguém de fora" e manchar as mãos de sangue? Compreenda aqui o tal "pacto". Talvez pra você esse "simples" exercício de imaginação seja difícil, mas para a cineasta chilena Lissette Orozco, o exercício escapou o âmbito da imaginação, tornou-se uma realidade e se transformou num pesadelo absoluto, que ela conseguiu registrar gradativamente, desde as primeiras suspeitas.

A sobrinha Lissette tinha em sua tia Adriana Rivas, carinhosamente chamada de Chany, a sua maior ídola. Tal imagem iniciou processo de desmoronamento quando, em 2007 foi presa, sob acusação de ter participado da ditadura de Pinochet. Não que ela tivesse participado ao largo, pelo contrário, ela teria sido da DINA, polícia política de Pinochet; mais do que isso, fora funcionária do general Manuel Contreras e, sim, teria experienciado a prática de sequestrar, torturar e assassinar. E lá foi Lissette Orozco, contrariando tantas expectativas, como que investigar por conta própria o que haveria de realidade na história da tia. Quanto mais se esforçava em sua investigação pessoal, enquanto poderiam pesar alegações de inocência, tanto mais por outro lado surgiam evidências factíveis do terrível envolvimento de Adriana. 

Este documentário tem a potência de um "indicado ao Oscar", de tão impressionante que se torna. Uma coisa é você assistir uma obra de alguém que, externamente, se decide a falar sobre ditadura e tortura. No entanto, outra coisa, extremamente mais poderosa, é um familiar fazer tal descoberta e dolorosamente se dispor a mergulhar numa ferida, que continua doendo em praticamente todos os países que viveram ditaduras terríveis. Durante "O Pacto de Adriana", é curioso ver a própria Adriana se defendendo veementemente para a sobrinha e é ainda mais impactante presenciar as nuances de decepção no rosto de Lissette. A tia dava depoimentos a sobrinha, acreditando que o resultado do que viria a se tornar tal documentário, ajudaria a provar sua inocência, porém o que ocorreu foi o contrário, arrependendo-se depois até de sua contraditória participação nos registros do documentário.

"O Pacto de Adriana" é também um resultado formidável de cinema intuitivo. A cineasta resolveu documentar suas ações sem saber para onde ir, partindo de um plural de linguagens, de todo tipo de câmeras e sem nenhuma ideia de como terminar a película. Foram 5 anos de um tormento filmado, de uma desilusão, de uma atitude honesta que doeu (e continuará doendo) e é importante que se frise assim. É também o encontro de uma vida, a de Lissette, que se destrói em frente das câmeras,  com a história de um país, resultando assim em mais uma perspectiva que ajuda a mapear o inferno desta história. Merecidamente, o documentário venceu o prêmio da paz no Festival de Berlim 2017, venceu o prêmio de melhor filme da 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e entrou em cartaz, com exclusividade, no Cinesesc. 

" O PACTO DE ADRIANA " - El Pacto de Adriana - Dir. por Lissette - Chile - 2017 - Distribuído por JF Filmes e exibido no Cinesesc - #52FilmsByWomen 

Instagram Oficial: @daniel_serafim_mais_cinema
Perfil Oficial: facebook.com/dsmaiscinema - Daniel Serafim 

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