segunda-feira, 5 de março de 2018

A Forma Da Água

"Aula de cinema, beleza estarrecedora e a continuidade da contribuição da escola dos cineastas mexicanos!"




Dentro da história do cinema atual, que dá seguimento a uma história já com mais de 100 anos, já temos estudos e pesquisas, pelas quais já se passa obrigatoriamente, promovidos por 3 grandes cineastas e, curiosamente, 3 grandes cineastas saídos do México. Só na última década, boa parte do resgate de ideais primordiais do cinema, que haviam se enfraquecido com o tempo, foram feitos por esses cineastas. Com "Gravidade", Alfonso Cuaron retomou/recriou a paisagem narrativa, ordenando praticamente que todas as tecnologias atuais conferissem um valor indizível a história contada; com "O Regresso", Alejandro Gonzalez Iñarritu (que já havia rompido um ócio criativo com "Birdman") retoma os ideais épicos do cinema, propondo que o ambiente externo e natural ainda pode (e precisa) quebrar qualquer noção de que a ficção talvez esteja aprisionada a si mesma; operando tamanha libertação monumental e colocando centenas de pessoas sob trabalho braçal, de fato, pra fazer tal filme, um evento em proporção raríssima nos dias de hoje; e, por fim, temos Guillermo Del Toro que, enfim, atesta com "A Forma Da Água" a necessidade vital do cinema em ocupar a imaginação, em utilizar a fertilidade imaginária, criando mundos verdadeiramente fantásticos, mas que não fiquem lá, "pairando no ar" e essa ideia parecia mesmo continuar vaga. Assim, então, conseguimos compreender algumas revoluções que andam promovendo o pensamento no cinema e seguimos adiante.

Em "A Forma Da Água" se alcançou um resultado de cinema tão genuíno que, se visto em telas menores que as telas do cinema, infelizmente não será captado em seu fervor de beleza visual, aliada a beleza da mais sensível das delicadezas com que o filme é costurado. É o caso de mencionar a visão de Guillermo Del Toro, um gênio, que promove um feito quase inalcançável: ele vence a distância que existe entre a riqueza de sua imaginação e a tradução desse universo para o cinema. Pense o seguinte: quando você assiste o balé dos símbolos que pipocam em "A Forma Da Água", tente imaginar que aquilo tudo, primeiro aconteceu dentro da cabeça de Guillhermo Del Toro e, certamente, com muito mais detalhes do que aqueles que ele conseguiu traduzir produzindo o filme. Pois bem, "A Forma Da Água" é também um filme íntimo, é resultado da relação afetiva que o diretor criou com o cinema clássico que cresceu assistindo, o cinema das criaturas, e dos monstros da Universal (diga-se isso de passagem). Porquanto, assistindo, sabemos que o clássico "O Monstro Da Lagoa Negra" ali está, na imagem da criatura anfíbia que Guillermo teceu, mas sabemos muito mais, quando olhamos para o espírito com que o filme é feito, que "A Forma Da Água" venera a tradição das histórias dos clássicos monstros do cinema, a escola do horror primário (de tantas manifestações cheias de carinho, vi muitas em que o diretor mencionou a ideia do "Frankenstein" de Boris Karloff) e, se você aguçar bem o seu olhar, vai enxergar nos cenários deste filme as lembranças do cenário de "Metrópolis" de Fritz Lang. 

Acusada, em alguns momentos de plágio, a história da faxineira muda e da criatura aquática, que vivem uma paixão, verte originalidade, pelo sim e pelo não. O que ela oferece de improvável, oferece de descoberta em caminhos conquistadores, mas o grande "x" da questão é uma velha máxima de sempre, aqui revitalizada: não importa, não importa se é guerra fria, se é EUA contra Rússia, Trump contra todos, não importa, o amor vence. O amor e a união. O que transcende na beleza de "A Forma Da Água" é, de fato, as formas diferentes que estão se amando e se unindo, e ignorando completamente suas diferenças. Essa é a substância humana e social do filme. Guillhermo Del Toro expõe um dos seus encantamentos que é, através de uma história fantástica, poder deflagar muito mais da realidade em que vivemos. Faz todo sentido, porque seus bons filmes anteriores, que encontraram em "O Labirinto Do Fauno" uma obra-prima máxima, utilizam grandes ferramentas imaginárias para contrair a duras realidades. O que projeta "A Forma Da Água" milhas a frente é o otimismo com que se levanta, pois, do contrário, todo o abismo de poesia com que é feito estaria fadado a descer pelo ralo, porém, já a partir da abertura belíssima com um mundo mergulhado, é perceptivo como toda aquela beleza é salvação, ou, nas palavras do próprio Del Toro, esta é uma história de vida, é uma história de cura. 

Se Frances McDormand não fosse o evento do ano em atuação entre as mulheres, é Sally Hawkins o grande espetáculo. A maneira como ela se deixa ser oxigenada pela personagem, é de um efeito inflamado de carinho e atinge momentos memoráveis. Contudo, como já é uma marca nos filmes de Guillermo Del Toro, não adianta, é quando a belíssima criatura surge diante de você, que fica a encargo a maior das surpresas. Quando a criatura se levanta e ocupa toda a tela do cinema, ficam nítidos seus detalhes mais bonitos, desde como brilha, passando pela estranheza aflitiva de sua pele, até seus olhos que nunca estão em concordância de movimentação. A tal criatura é, na verdade, mítica, ela é um elemento místico de seu habitat, é uma criatura amazônica. Interpretada por Doug Jones, um mestre de sua arte, ela funde completamente nossa imaginação. Honestamente, não fiquei com a impressão de que esse filme de Guillermo Del Toro tem aquele impacto de "O Labirinto Do Fauno" que ainda perdura dentro da mente da gente, no entanto, sem nenhum prejuízo, presta essa contribuição ao Cinema, a de continuar atestando de que, no Cinema, a fertilidade imaginária importa. Sem ela, não há Cinema. Viva Guillermo Del Toro. 

" A FORMA DA ÁGUA " - The Shape Of Water - Dir. por Guillermo Del Toro - EUA - 2017/2018 - Distribuidora no Brasil: Fox Filmes - Exibidor para o Mais Cinema: Cinema Caixa Belas Artes 

Instagram Oficial: @daniel_serafim_mais_cinema 
YouTube: Daniel Serafim Mais Cinema 



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