domingo, 11 de março de 2018

Como Nossos Pais

"O melhor filme brasileiro de 2017. Ponto. E por várias razões!"

DVD E CARTAZ ENVIADOS PELA IMOVISION PARA O DANIEL SERAFIM MAIS CINEMA
QUERO AGRADECER A IMOVISION, AGRADECER AO ASSESSOR ELIAS OLIVE, PELO RESPEITO E CARINHO PELO TRABALHO DO MAIS CINEMA 

O trovão está gritando cada vez mais alto, a chuva começa a cair sobre a mesa, o leite fervido derrama e esses ruídos ameaçam a morbidez. Já vimos muitos conflitos familiares no cinema, alguns filmes sobre reuniões assustadoras de famílias não saem da nossa cabeça, mas nenhum deles é como "Como Nossos Pais". De tantos talentos, o que mais me perturba em "Como Nossos Pais", é como coube ao filme a capacidade de exibir uma ruptura comportamental/cultural/social e de mostrar como funciona a interrupção de padrões que vem sendo transmitidos há séculos e que, até aqui, afetaram sobretudo as mulheres. "Como Nossos Pais" é um filme dirigido por uma mulher, a notória cineasta Laís Bodanzky, a partir de um roteiro escrito por ela e por seu colaborador de longa data, Luiz Bolognese; é um filme de uma cineasta mulher autora, sobre uma protagonista mulher, que representa quase 100% de todas as mulheres. São essas mulheres forjadas até aqui a desempenharem dezenas de papéis segregadores ou registrados como secundários, sempre aprisionadas por filtros minimizadores, machistas e desumanos. Esta é, possivelmente, a primeira vez no cinema brasileiro que um olhar examina o comportamento de gerações, com o desafio de desintegrar tal comportamento ao máximo e devolver a mulher a liberdade suprema e o direito de como viver sua vida. Ao mesmo tempo, "Como Nossos Pais" é um resultado de cinema autêntico, construído majoritariamente por uma direção inspiradora e que conta com atuações magníficas. 

"Você foi concebida na minha viagem a Cuba e o Homero não estava lá": essa é a frase memorável deste filme, é o anúncio que desestabiliza completamente a protagonista e lhe abre a possibilidade de enfiar junto desta decepção todas as suas infelicidades. A partir desta frase, seu pai não é mais seu pai, mas vai aproveitar para o "só ser esposa" não ser mais o só "ser esposa", para o "só ser mãe" não ser mais o "só ser mãe", para o "só dar conta de marido, casa e filhos" não ser mais o "só dar conta de "marido, casa e filhos", ou seja, o desgaste que já vinha pesando sobre a protagonista, vivendo cercada de exigências e de aparências, chega ao fim. É o grande trunfo deste filme, a cineasta Laís Bodanzky filmar o mal estar que se instala na vida de uma mulher que, na medida em que vai percebendo como está atrelada a um mecanismo que faz de sua existência uma prisão, passa a perceber além. Mas há outros trunfos em "Como Nossos Pais", como captar pelo menos 3 gerações diferentes e extrair o sentido máximo da música imortalizada na voz de Elis Regina, que endossa o título deste filme. Repare, então, que temos as oposições entre mãe e filha; temos a filha, a protagonista, debatendo a todo instante, dominando sua consciência e se deslocando; e temos, por fim, sua relação com suas filhas. Enquanto sua mãe tem a sobriedade de não se arrepender de nada do que viveu, a filha entre num processo de discordância da paisagem a sua volta e, assim, mesmo sendo dura com suas filhas, termina o filme cedendo no que antes leva a ferro e fogo. É a beleza da direção de Laís Bodanzky, que transita com delicadeza, simbolismos e desconstruções de imagens por sobre as gerações e sagra sua personagem, na conclusão de tudo, com o poder máximo da liberdade, da consciência e da escolha. 

Os últimos grandes filmes que assisti trazem personagens que carregam sobre si fardos dolorosos e também são filmes que, em pleno novo milênio, anunciam o desmoronamento de toda uma era. É por isso que, nesse sentido, a atuação da atriz Maria Ribeiro em "Como Nossos Pais" foi, de longe, a melhor da produção brasileira em 2017. Menos Maria Ribeiro e mais Rosa, sua personagem, ela conseguiu não explodir completamente e chegar num tom que, de fato, fizesse dessa mulher uma representante, como dito antes, de quase 100% de todas as mulheres. Também a atuação da extraordinária Clarisse Abujamra como Clarisse, a mãe de Rosa, sem dúvida, foi a melhor atuação coadjuvante da produção brasileira em 2017, que conseguiu oferecer o melhor sentido do contraponto para a protagonista. E Laís Bodanzky, num desses momentos mais inspiradores do cinema, despediu-se da personagem de Clarisse Abujamra sob a benção da Monja Coen, a guru da atualidade. Quero ainda salientar que "Como Nossos Pais" está se juntando a um movimento violento (no bom sentido) de filmes que fazem o protagonismo feminino traduzir todo o Brasil político/cultural atual e que tem agora, com o filme de Laís Bodanzky, seu 3º grande ápice, seguindo "Que Horas Ela Volta?", da cineasta Anna Muylaert e "Aquarius", do cineasta Kleber Mendonça Filho. Foi lamentável que o Brasil, em mais um ano, não tenha indicado a disputar ao Oscar o filme que, de fato, tem representatividade dentro de sua indústria cinematográfica e, principalmente, dentro da importância do momento em que vivemos como um todo no mundo. Viva Laís Bodanzky!

" COMO NOSSOS PAIS " - Como Nossos Pais - Dir. por Laís Bodanzky - Brasil - 2018 - Distribuidora no Brasil: Imovision 

Instagram Oficial: @daniel_serafim_mais_cinema 
youTube: Daniel Serafim Mais Cinema 



MAIS CINEMA! A GENTE SEMPRE QUER MAIS, DAQUILO QUE A GENTE AMA!

Nenhum comentário:

Postar um comentário