quinta-feira, 29 de março de 2018

Eu, Tonya

"Para amar ou para odiar, a América sempre quer alguém!"




Na cena mais chocante de "Eu, Tonya", a garçonete Lavona (interpretada magnificamente como um trator pela extraordinária Allison Janney) joga uma faca que afunda no braço da filha Tonya (outra "interpretação trator", exibida hipnoticamente pela igualmente extraordinária Margot Robbie), prendendo a respiração do expectador. Se tem uma coisa com a qual a patinadora Tonya Harding sempre lidou sem opção foi a violência. A mãe, acreditando no potencial esportivo da filha, a impôs criança à treinadora e sem aceitar um não. O que se segue depois faz de "espancar" um apelido, tanto no físico, quanto no psicológico. O marido que Tonya arrumou foi pelo mesmo caminho, fazia questão de deixar hematomas impressos sobre a pele da patinadora, aprisionada por aquele "amor violento". E a atuação de Tonya como patinadora, a grande beleza da existência de sua vida, iniciou o decreto de fim quando a perna de sua principal rival, Nancy Kerrigan, foi atingida em cheio por uma senhora barra de ferro  (os gritos da patinadora, nos vídeos reais da época, são angustiantes). Um dos casos mais polêmicos da história do esporte mundial, nunca se saberá o quanto Tonya Harding teve, ou não, seu dedo metido na história. E tudo isso, no filme infernal do cineasta australiano Craig Gillespie, serve como matéria-prima para ajudar a revelar, neste momento, a América de Donald Trump.

Pois é, "Eu, Tonya", ao lado de outras realizações deste ano como o ápice "Três Anúncios Para Um Crime", ajuda a compreender um pouco do sentimento que paira sobre a atmosfera americana pós Trump, que está colocando atenção na tal "outra América". É um olhar para uma fatia da população (e olhar que vem causando a maior das polêmicas do milênio) que vive sob as mesmas violências (ou dê o nome que você quiser) que Tonya Harding viveu. Dessa forma, o filme do cineasta Gillespie é tão bem sucedido na sua comunicação que, sem nenhum pudor, usa e abusa com perversão da quebra da "quarta parede", colocando por vezes os personagens falando diretamente à câmera e explicando suas atitudes violentas, agressivas ou as razões de suas atitudes insensíveis, mas conscientes. É a maneira como a leitura da contraditória vida de Tonya Harding (o mundo cão), encontra na direção pra lá de afiada de Craig Gillespie, um relevo ensurdecedor nos dias de hoje. De fato, por mais divertido, insano, irônico, sarcástico, que o filme seja, é uma leitura que pode confundir muitas impressões sobre o resultado.

Craig Gillespie já havia demonstrado no extraordinário "A Garota Ideal" (o delicioso filme em que Ryan Gosling mantém relação com uma boneca inflável) o prazer por narrar histórias improváveis e com um sabor admirável. No entanto, 10 anos depois, ele demonstra o mesmo sabor, promove um grande entretenimento e consegue incorporar vários talentos em "Eu, Tonya". A própria trilha sonora deixa o filme tão envolvente, tão em êxtase, que é um prazer absoluto ouvir "The Chain", do grupo Fleetwood Mac ou "Free Your Mind", das maravilhosas "En Vogue", aliás, é um hino atrás do outro, é um prazer recordar uma época através de grandes músicas. Então, o que temos em "Eu, Tonya" é um acerto fenomenal, que segue sim, em algum momento, um certo clichê de cinebiografias, mas que encontra todo um resultado notável como um dos melhores filmes do ano. 

" EU, TONYA " - I, Tonya - Dir. por Craig Gillespeie - EUA - 2017 - Distribuidora no Brasil: Califórnia Filmes - Exibidor para o Mais Cinema: Cinema Caixa Belas Artes

Instagram Oficial: @daniel_serafim_mais_cinema
Youtube: Mais Cinema Por Daniel Searafim 



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2 comentários:

  1. Um dos grandes filmes dessa temporada de Oscar que passou e que deveria ter recebido maiores indicações

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