sexta-feira, 2 de março de 2018

Sem Amor

"Seja o retrato mais perturbador de uma sociedade ou a direção mais corajosa de um diretor, este filme, sobretudo, é magistral!"



Na Rússia, este homem, diretor de cinema, chamado Andrey Zvyagintsev, de 54 anos, é chamado de "dissidente" e de "Judas". Depois de seu filme anterior, a obra-prima extraordinária "Leviatã", teve qualquer apoio cultural do governo barrado e, para conseguir realizar "Sem Amor", foi somente com dinheiro vindo de investidores e da Europa Ocidental, menos estatal. O Ministério da Cultura russo conseguiu barrar incentivo a manifestações artísticas que, segundo o órgão, "contaminem" a cultura do país. Desde que esse diretor passou a transformar seus filmes em genuínas obras artísticas e ávidas em criar um relevo, sensível ao toque, utilizando como maior matéria prima a política vigente russa de décadas, que tem afetado a personalidade e o comportamento de toda uma nação; e desde que esse diretor passou a proteger essa característica de espelho em seus filmes, a refletir seu país, a partir de sua interpretação, passou também a experienciar a censura. Porém, a tentativa de cerceamento à liberdade de expressão de Andrey Zvyagintsev é em vão, afinal, ele já se afirmou como um dos maiores realizadores de cinema da atualidade contemporânea. 

Este filme, "Sem Amor", grande vencedor do prêmio do júri em Cannes/2017 e forte indicado ao Oscar/2018 como melhor filme estrangeiro, transita por duas vias imensamente talentosas: primeiro, um bem sucedido exercício de cinema, feito por uma direção magistral, de mão firme, onde todas as equações funcionam,  com enquadramentos belíssimos, com movimentação de câmera inspiradora e com uma fotografia tão nítida, que parece estar o tempo todo sob um vidro do mais espesso possível e que, mesmo assim, não altera a imagem, é um efeito extraordinário; segundo, esse filme é, sobretudo, terrível, doloroso, doído, desconfortável e forma uma visão pessimista dessas pessoas, mãe e pai em processo de separação, que ignoram completamente o filho e que, frente ao desaparecimento da criança, não convencem nem a si próprios se devem sofrer por isso ou não. E, justamente, nesse ataque feroz, é que o filme cresce, acerta de maneira selvagem e se levanta sublime. É um espetáculo acreditar que esses personagens existam e é igualmente espetacular pensar que esse é o retrato da Rússia. Pior ainda se você pensar que tais retratos estejam do seu lado neste exato momento. É impiedoso, é violento, sem pena e sem dó. É o diretor sustentando sua visão, doa a quem doer e ponto. 

É interessante notar que o diretor, no que cabe a liberdade de expressão do artista e no que cabe a uma das funções da arte, que é questionar livremente, sem tabu e sem culpa, mostra também personagens que não vivem sob a ideia do amor romântico que temperou/envenenou a nossa ideia de relação e família. Independente de qualquer julgamento que possamos fazer sobre os personagens de "Sem Amor", eles, de alguma forma, estão inseridos na maneira como enxergam o que lhes basta de amor, seja com doses cavalares de egoísmo ou não. Logicamente, estamos assistindo um incômodo que mostra personagens vivendo extremismos de frieza, a partir da interpretação do diretor de sua cultura e sociedade, mas, para nós, talvez possa ser difícil encarar a corrente de atitudes que julgamos inaceitáveis em "Sem Amor", por conta de vivermos uma transmissão cultural que nos ensinou o afeto, o carinho e a doação, embora quando a gente se observe sem hipocrisia, possam aparecer também friezas e egoísmos, tão ou mais assustadores que em "Sem Amor"

Fato é que, "Sem Amor" não endossa atitudes, ele pode chocar, mas também se constrange. Se contrai em sofrimento, como um feto dentro do útero, na Rússia pós-comunismo que virou um país sem dó. Esse cinema feito por Andrey Zvyagintsev segue outros retratos contemporâneos desconfortáveis da Europa, dos filmes de Haneke, Ulrich Seidl e Fatih Akin. Aliás, esse espectro da "escória que se reproduz", presente em "Sem Amor", é também deflagrado em "Em Pedaços", de Fatih Akin, que venceu o Globo de Ouro/2018 de melhor filme estrangeiro e que estava indicado ao lado do russo. Não me resta dúvida de que "Sem Amor" é belíssimo, na mesma medida em que dói e também não me resta dúvida de que, quando um diretor consegue realizar uma obra, que se sustenta igualmente dessas duas medidas, belíssimo e doloroso, este é um grande diretor e este é um grande filme. 

" SEM AMOR " - Nelyubov - Dir. por Andrey Zvyagintsev - Rússia - 2017  

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Um comentário:

  1. Tudo aponta para a vitória de The Squard no Oscar, mas esse filme talvez venha a surpreender.

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