quinta-feira, 19 de abril de 2018

Me Chame Pelo Seu Nome

Disponível em dvd e bluray:

O DVD VEM COM EXTRAS

Repare como a tensão, em Luca Guadagnino, precisa ser espalhada por vários locais, atuando como "pontos nervosos" ao toque visual; repare como precisa acontecer se utilizando e atrelada ao ambiente, ao espaço físico, ao mapa quase que geográfico, estabelecendo uma linguagem. Logo, se sabe que a movimentação ajuda a perceber o estado interior de seus personagens. Então, você sente qual é a pulsão do momento, se aflige muito mais com ela, através do "ir e vir" dos personagens, através das ações que vão ficando pelo caminho, do que se eles se expressassem verbalmente. Repare, na filmografia deste cineasta, na espécie de uso "decrescente" extraordinário do habitat ao redor: temos em "Eu Sou O Amor" a exploração mais perceptível da arquitetura, seja das casas, das ruas, construções ou mesmo do "lá fora"; posteriormente, em "Um Mergulho No Passado", uma ilha italiana se tornava toda ela um ninho de tensões e climas, em torno de uma personagem quase muda, criando um efeito indescritível; no entanto, é em "Me Chame Pelo Seu Nome" que está o miolo dessa ideia, ainda mais íntima, ainda mais frágil e ainda mais devastadora. Essa ideia de que a natureza dos personagens, quando flerta com a natureza do espaço, revela os reais sentimentos que descortinam nossa identidade e o que pode haver de mais libertário nesse abismo que somos nós. 

Repare, sob a perspectiva acima, como os sentidos do espectador se confundem, articulando magistralmente a noção de expectativa sobre a relação de Elio e Oliver, todas as vezes em que eles estão no espaço de seus quartos, com portas que se abrem e fecham entre os cômodos, as quais em determinados momentos você não sabe ao quarto de quem, de fato, elas levam ou pra onde, de fato, elas dão. Repare ainda, numa sequência quase antológica, de poucos mais de 4 minutos sem cortes, quando ambos estão prestes a se revelar um ao outro e, entre eles, a existência de um monumento à 1ª guerra inspira uma célebre troca de palavreados entre os dois. Oliver questiona o que Elio, dotado de tanto conhecimento, porventura viria ainda a não saber e Elio, apropriando-se da deixa de respostas não ditas, enquanto completam a volta ao redor do monumento, passa a sussurrar ininterruptamente "porque eu queria que você soubesse", ao som de "Une Barque Sur L'Ocean", de Ravel. O resultado da equação de tais ferramentas narrativas orquestradas pela direção de Luca Guadagnino, é como o resultado da ação de um juiz que bate o martelo efetuando o encerramento do tribunal, ou seja, é fatal.

Tal fatalidade se dá, em "Me Chame Pelo Seu Nome", pela força exercida exatamente de toda a "mis-en-scene" criada por Luca Guadagnino. Mas, assim, exatamente toda mesmo! O depósito que a visão de Guadagnino e o texto de James Ivory, que ambos exploram brilhantemente do texto do autor André Acimam, encontra no cenário italiano, encontra na forma como aquele "algum lugar no norte da Itália em 1983", a postura ideal para a câmera naturalista do cineasta, que por sua vez, proporciona a tendência de Elio por sua natureza. Ao que tudo indica, essa equação expressa aqui, da forma como é proposta, continuava inexistente no cinema contemporâneo, até o surgimento de Guadagnino. Aliás, guardadas as devidas proporções, quem vinha vivendo um flerte com essa forma de conjugar a "mis-en-scene", do espaço ao texto, foi outro italiano, Paolo Sorrentino, na obra-prima "A Grande Beleza". Repare também como a Itália serve (como outrora no cinema), da luz do sol durante seus dias, as sombras de suas noites, como o melhor lugar para sua vida nunca mais ser a mesma e para que amores de verão afetem, sem volta, sua história. Nenhuma outra paixão, por mais devastadora que seja (e o nível das que, nesse sentido vi no cinema nos últimos anos, foram de "Namorados Para Sempre" á "Alabama Monroe" e "Azul É A Cor Mais Quente"), nenhuma outra tem um cenário tão fulminante como a paixão entre Elio e Oliver tem.

Repare também como o romance entre esses dois homens encontra a nitidez que Guadagnino continua protegendo em sua filmografia. Há sempre uma ruptura cultural violenta, de algo tradicionalmente transmitido pela sociedade, na ideia de como a idade dos condutores das tramas de Guadagnino é  discrepante. Essa ideia, aliada vorazmente ao registro quase idealizado do romance entre esses dois homens, em "Me Chame Pelo Seu Nome", tem a potência de fazer ferver a experiência sensorial de quem assiste. A bem da verdade, vale sempre lembrar que, no cinema e na ciência da narrativa em si, o conflito é um de dois elementos básicos (o outro é a descrição do personagem) cuja finalidade é o desenvolvimento nato da empatia entre o que se narra e o espectador. Por um momento questionei se havia uma sensação de inexistentes maiores conflitos entre Oliver e Elio, questionando se não é uma ideia equivocada que talvez também a vida possa ser assim, sem tantas pressões. Porém, o tal monólogo do pai ao final, esse sim antológico, desterrou qualquer fragilidade que eu suspeitasse existir na ideia do romance entre Oliver e Elio. De fato, pode ser um ideal, até para o que almejamos, mas, quando este pai que pertence (mais ou menos) a década de 50/60 (já que a história pertence a 83), diz com todo o amor do mundo que "inveja" o filho e que, no lugar dele, outros pais gostariam que tudo aquilo acabasse, dizendo ainda a máxima de que "tiramos muito de nós, para nos curarmos rapidamente de coisas, falindo-nos aos 30 anos"; quando você compreende esse monólogo inteiramente, você percebe então, como "Me Chame Pelo Seu Nome" faz sentido. E a cena final deste filme é devastadora, me fez sair do cinema chorando como criança.

" ME CHAME PELO SEU NOME " - Call Me By Your Name - Dir. por Luca Guadagnino - Itália/França/Brasil/EUA - 2017 - Distribuidora no Brasil: Sony - Exibidor para o Mais Cinema: Caixa Belas Artes

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