domingo, 1 de abril de 2018

Uma Mulher Fantástica

"Definições de 'soco no estômago' e 'tapa na cara' são atualizadas. O grande vencedor do Oscar/2018 tem o poder de deixar em choque!"


GENTILMENTE, A DISTRIBUIDORA IMOVISION, ENVIOU CARTAZ E DVD AO MAIS CINEMA


Quer ter um mínimo de compreensão sobre a vida de uma transexual no mundo a sua volta? Quer fazer um exercício letal e, literalmente, ocupar o lugar de uma trans durante 104 minutos? Então o Cinema age e sugere a mais devastadora oportunidade: o grande vencedor do Oscar/2018 como melhor filme estrangeiro, o chileno "Uma Mulher Fantástica", é uma das experiências mais assustadoras do Cinema, colocando o espectador contra a parece, descendo uma saraivada de humilhações e agressões, encontrando a maior das comunicações universais com toda a humanidade. Mas, mais do que isso, neste filme assombroso do chileno Sebastián Lelio, um movimento constante deixa o espectador inquieto. Enquanto Marina Vidal, a transexual estupenda construída pela extraordinária Daniela Vega (uma revelação magnética), atravessa um calvário, também cutuca a bolha do autoconhecimento, ora usando a agulha do "quem sou eu?!" para si mesma, ora emprestando a mesma agulha para o espectador, mas mudando a pergunta para "quem sou eu para você?!/o que sou eu para você?!/como você me vê?!". É justamente daí que brota a beleza do filme de Lelio. Aliás, ela pode brotar tranquila e silenciosa, mas a força da vida que traz consigo tem a potência da natureza, tão violenta e ao mesmo tempo tão abstratamente ordenada, como as cataratas do Iguaçu, que lindamente abrem o filme e ajudam a intuir o seu sentido.

O filme que começa com a comemoração do aniversário de Marina e que segue com os planos de seu marido Orlando para que viagem juntos para as cataratas (o que nos anestesia a pensar que poderíamos assistir um lindo romance como qualquer outro), de repente sofre uma virada brusca com a súbita morte dele e passa a descer, sem freio, tornando Marina o centro das atenções. O médico do hospital a fere com um olhar acusatório, como se ela fosse um símbolo de marginalidade. O que se seguirá é a continuidade brutal e desenfreada de humilhações, ultrajes, ofensas e agressões, da investigadora de polícia à antiga família de Orlando que, além do comportamento animalesco, anuncia sua própria forma de sentença sobre Marina: a proibição de sua presença no velório e no funeral, ou seja, o impedimento de dar o "último adeus" ao homem que amava.

Notavelmente, Sebastián Lelio evita fazer de seu filme uma incisão política ou social, pontuando que sua decisão de fazer este filme foi porque a história o emocionou e porque há amor nesta trama. Ela é universal, mais por conta da vida que contém, do que pelo símbolo que carrega (e que também conecta o filme com a realidade de transgêneros e com as discussões de gênero pelo mundo afora). De fato, nota-se como o tratamento que Marina recebe dói dentro dela, o que a desestabiliza emocionalmente e existencialmente, mas não a destrói. Dessa forma, Marina se questiona o tempo todo diante da espécie de "preço que paga" por ser lida como uma quimera. Ela se observa, para garimpar o eixo de quem ela tem certeza que é. Surgem, então, os símbolos que provocam o espectador. Numa das cenas mais memoráveis, Marina está nua e quando a câmera tenta revelar ao espectador seu genital, é um espelho refletindo o rosto de Marina que ela tem entre as pernas. É Sebastián Lelio mexendo com os nossos sentidos, com a nossa visão, com a nossa percepção e com a nossa aceitação, afinal, o que é que vemos ou o que é deveríamos ver?!

Daniela Vega citou Almodóvar para falar de sua transição, em como foi importante assistir seus filmes e descobrir o que estava acontecendo consigo e, fato é, que o Cinema de Pedro Almodóvar ecoa dentro da cabeça em "Uma Mulher Fantástica". Em algum momento a música, as cores, um clima de mistério, vai trazê-lo à lembrança. A impressão é que Sebastián Lelio arrumou uma maneira muito autêntica de gravitar entre esse cinema, seja o de Almodóvar ou de outros, que há muito tempo se interessam por essas vidas e por essas concepções. O cinema de Lelio, aliás, é de uma vitalidade, de uma composição e de uma narrativa tão fluentes, que cada vez mais vem lhe trazendo reconhecimentos. Ela já havia sido premiado em Berlim com o excelente "Gloria" e com "Uma Mulher Fantástica" saiu do festival com 2 prêmios e Daniela Vega, por pouco, não foi a primeira atriz transexual a ser premiada no festival, tamanha a conquista de sua interpretação. Ela é tão fantástica, quanto Marina, porém suas vidas não foram tão iguais, segundo ela mesma, que lembrou dos seus afetos em entrevistas, mas uma coisa é certa: Daniela, assim como Marina numa de outra das cenas extraordinárias desse filme, vem resistindo a ventania impetuosa pelas ruas ao ponto de curvar-se, mas tem seus pés firmes no chão. Ela ainda não mudou seu nome social no Chile, o que já poderia ter feito por ser uma pessoa pública, mas espera as mudanças nas leis, para que possa atravessar pelos mesmos processos que as outras transexuais que não tem os mesmos privilégios que ela teria. 

"Uma Mulher Fantástica" - Una Mujer Fantástica - Dir. por Sebastián Lelio - Chile - 2017 - Distribuidora no Brasil: Imovision

Instagram Oficial: @canaismaiscinema 
YouTube: Mais Cinema Por Daniel Serafim

MAIS CINEMA! A GENTE SEMPRE, QUER MAIS DAQUILO QUE A GENTE AMA!

Nenhum comentário:

Postar um comentário