domingo, 3 de junho de 2018

A Natureza Do Tempo

"O ontem e o hoje, na atual Argélia, de muitas histórias a serem contadas!"



Este é o primeiro longa do diretor argelino Karim Moussaoui que, em 2017, exibiu "A Natureza Do Tempo" na mostra "Um Certo Olhar" em Cannes e concorreu ao prêmio "Câmera de Ouro". Pretende, neste filme, "respirar" e mapear um tanto da atual Argélia, entrando e saindo pelas histórias de personagens, que encontram conexões uns com os outros e que, através de como a estrutura desse filme é feita, querem dizer que, nesta Argélia, há histórias a serem descobertas e contadas. Enriquece perceber neste filme a intersecção de personagens, que pertencem a gerações diferentes e que estão condicionados, em algum momento e em alguma medida, ao que seu país carrega: os efeitos de sua história. 

Um construtor presencia uma agressão entre os becos argelinos e não toma partido; uma jovem argelina parte para seu casamento, mas é com o motorista que criou um laço; um médico está sob desconfiança de que teria estuprado uma mulher no passado e vai ao encontro dela, quando ela reaparece com uma criança. São passagens que falam de ética, de dívida, de teor moral, de destino, de tradição e que falam, sobretudo, como esses personagens estão vivendo essas passagens tendo de tomar suas decisões ou tendo de viver sob decisões tomadas no passado. O diretor não toma julgamento sobre seus personagens, ele os observa e o filme cresce frente aos conflitos.

A Argélia sofreu demais com suas principais guerras, tanto com a guerra da independência na década de 50, quanto com a guerra civil na década de 90. Como são as reflexões nesse país cheio de histórico, cheio de conflito religioso, cheio de tradição e "cheio de homens"? É uma das propostas do filme, ao colocar seus personagens reagindo e seguindo. O diretor Moussaoui filma, em alguns momentos, realmente muito bem. Impacta o espectador com algumas sequências muito decisivas: a longa sequência do construtor conversando com a ex-esposa; a sequência do casal fora do hotel e, por fim, a sequência em que o doutor ouve a mulher que foi estuprada. São momentos em que o filme deseja ser sublime e, ainda que falte algum ingrediente para esse sabor, ainda assim elas conseguem demonstrar o tato do cineasta em intrigar o espectador. 

Há alguns detalhes e concessões interessantes, utilizados pelo roteiro, para flertar com a vivência da tradição e da atualidade. O uso da música, por exemplo, foi utilizado para surpreender a narrativa, ora com a inserção de uma apresentação de uma dança tradicional, ora com a inserção de uma banda marcial no deserto e ambos os momentos deixam uma boa impressão. Contudo, o filme do diretor Karim Moussaoui quer meditar com o espectador, meditar sobre a Argélia que tem histórias e, ao final, surge o que poderia ser sua quarta história. O filme ganha em exibir uma consciência em saber de sua densidade e não abusar do peso que, por si só, já tem.

"  A NATUREZA DO TEMPO " - En Attendant Les Hirondelles - Dir. por Karim Moussaoui - Argélia - 2017 - Distribuidora no Brasil: Imovision 

Instagram Oficial: @canaismaiscinema



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